Criador e Criatura

Gomes   18 de agosto de 2016   Nenhum comentário em Criador e Criatura

 

Criador e Criatura

“Que o homem contemple a natureza inteira em sua elevada e plena majestade, que ele afaste a vista dos objetos baixos que o cercam. Que ele veja essa brilhante luz acesa como uma lâmpada eterna para iluminar o universo, de modo que a Terra lhe pareça um ponto do vasto trajeto que esse astro descreve, e que se espante com o fato de que esse vasto trajeto não é mais do que uma ponta muito delicada comparada com o trajeto que os astros que giram no céu abraçam. E se nossa vista se detém aí, que a imaginação a substitua; ela se cansará mais de conceber do que a natureza oferecer. Todo esse mundo visível não é mais que um traço imperceptível no amplo seio da natureza. Nenhuma ideia dela se aproxima. Em vão tentamos ampliar nossas concepções para além dos espaços imaginários e não criamos mais que átomos em troca da realidade das coisas. É uma esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência em parte alguma. Enfim, é tão grande a feição sensível do poder de Deus, que nossa imaginação se perde nesse pensamento. Que o homem, voltando-se para si mesmo, considere o que ele é em comparação com o que é; que ele se veja como desgarrado nesse canto desviado da natureza, e que dessa pequena cela onde se encontra alojado, que entendo como o universo, ele aprenda a estimar a terra, os reinos, as cidades e ele mesmo por seu justo valor. Que é um homem no infinito? Mas, para apresentar-lhe um outro prodígio igualmente espantoso, que ele procure no que conhece as coisas mais delicadas. Que um minúsculo inseto lhe ofereça na pequenez de seu corpo partes incomparavelmente menores, pernas com juntas, veias nessas pernas, sangue nessas veias, humores nesse sangue, gotas nesses humores, vapores nessas gotas. Que, dividindo ainda mais essas ultimas coisas, ele gaste seus esforços em suas concepções, e que o objeto final a que possa chegar seja o de nosso discurso; ele pensará, talvez, que se trata da menor partícula da natureza. Eu desejo faze-lo ver ali dentro um novo abismo. Desejo que imagine não só o universo visível, mas a imensidade que se pode conceber sobre a natureza, dentro dos limites desse resumido átomo. Que ele veja um infinito universo, cada um com seu firmamento, seus planetas, sua terra, na mesma proporção do mundo visível; nessa terra, animais e os pequeninos insetos nos quais encontrará o que os primeiros lhe revelaram; e encontrando nesses outros a mesma coisa sem fim e sem repouso, que ele se perca nessas maravilhas tão espantosas por sua pequenez quanto as outras por sua extensão; pois quem não se admirará de que nosso corpo, que não era perceptível no universo, imperceptível no seio do todo, seja agora um colosso, um mundo, ou um todo com relação ao nada onde não se pode chegar? Quem se considerar dessa forma sentirá terror de si mesmo e, considerando-se sustido na massa que a natureza lhe deu, entre esses dois abismos de infinito e de nada, tremera diante da visão desses portentos; e creio que sua curiosidade, transmutando-se em admiração, o fará mais disposto a contemplá-las em silêncio que a procurá-las com presunção. Pois, afinal, que é o homem na natureza? Um nada comparado ao infinito, um todo comparado ao nada, um meio entre nada e tudo. Infinitamente distante de compreender os extremos, o fim e o princípio das coisas estão para ele invencivelmente ocultos num segredo impenetrável, igualmente incapaz de ver o nada de onde foi tirado, e o infinito no qual está submergido. Que fará ele então, senão perceber qualquer aparência do meio das coisas, num desespero eterno de não conhecer nem seu princípio nem seu fim? Todas as coisas são tiradas do nada e levadas até o infinito. Quem seguirá essas espantosas manobras? O autor dessas maravilhas as compreende. Nenhum outro pode faze-lo.” Blaise Pascal, em Criador e Criatura.

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